Quinta-feira | Maio 15, 2008

Onde o Outono se agacha para dormir

Nunca o recomeço foi fácil, tu sabes.
Sabem-no os bailarinos e os artífices,
e também os amantes, entorpecidos
pela longa paralisia da ausência.
Mas nunca ninguém se queixa.

A mão quer ser benevolente
quando a alma empalidece e omite
os sofrimentos que a moldaram.
Há versos serpenteantes como silvos
e gritos lancinantes como adagas.
A casa deixou de ser cúmplice
desta escrita que se alimenta da sua dor.
Um poeta não tem que ser a margem
em que tudo se aninha e se oculta.
Há de ser outro o seu destino.

Eu morri por dentro, torrencial,
como uma máquina ferida, esventrada
pelo brutal ofício da confidência.
Só os cães logram decifrar nos meus olhos
o sacrifício do que nunca será lido.

Um dia hastearás por mim, promete,
na proa de uma nau incandescente,
o pequeno estandarte da alegria
que eu nunca soube partilhar.
O amor será então uma cicatriz,
uma pétala ferida no lugar
onde o Outono se agacha para dormir.


José Jorge Letria, O Livro Branco Da Melancolia

Escrito por CEnes em 16:20:55 | Link permanente | Comments (0) |