Querem por minha fé
Eu digo qual delas é
Que adora meu coração
Se consultar a razão
Digo que amo Soledade
Não Lia cuja bondade
Ser humano não teria
Não aspiro à mão de Iria
Que não tem pouca beldade Texto do Património Literário Oral
A mão quer ser benevolente
quando a alma empalidece e omite
os sofrimentos que a moldaram.
Há versos serpenteantes como silvos
e gritos lancinantes como adagas.
A casa deixou de ser cúmplice
desta escrita que se alimenta da sua dor.
Um poeta não tem que ser a margem
em que tudo se aninha e se oculta.
Há de ser outro o seu destino.
Eu morri por dentro, torrencial,
como uma máquina ferida, esventrada
pelo brutal ofício da confidência.
Só os cães logram decifrar nos meus olhos
o sacrifício do que nunca será lido.
Um dia hastearás por mim, promete,
na proa de uma nau incandescente,
o pequeno estandarte da alegria
que eu nunca soube partilhar.
O amor será então uma cicatriz,
uma pétala ferida no lugar
onde o Outono se agacha para dormir.
José Jorge Letria, O Livro Branco Da Melancolia